terça-feira, 30 de novembro de 2010

TALENTO NÃO TEM IDADE - EL BECKO EM SP

Dos três, ele é o menos popular. Dos três ele é o mais experimental (ou seria criativo?). Dois dos três já afirmaram por algumas vezes que ele é o melhor. Clapton, Page e Geoffrey Arnold Beck, ou só Jeff Beck têm algumas coisas em comum. Além obviamente de serem os últimos dos guitar heroes vivos dos anos 60 (não, Keith Richards não é guitar hero, ele é o Satanás) e britânicos, os três têm em comum também o fato de terem passado pela mesma banda, às vezes simultaneamente, os Yardbirds.

Mas na quinta-feira passada a cidade de São Paulo não teve a honra de receber os Yardbirds, nem os 3 juntos. Pudera. Três dias antes a cidade tinha aberto os braços e o coração para Paul McCartney...toda essa gente junta numa mesma semana obrigaria o prefeito a mudar o nome daqui para São London ou New Paulo. Quem veio na minha (de novo, minha) opinião, foi o melhor dos 3: Jeff Beck. Apesar das rádios insistirem em afirmar que essa era a primeira vez de Jeff Beck no Brasil, ele já havia passado com tudo por aqui há 12 anos no extinto e saudoso Free Jazz. Naquela ocasião, ele tocou os clássicos especialmente do Blow by Blow (1975) e Wired (1976), ou seja, pros desavisados ou mal informados não era noite para escutar Cause we’ve ended as lovers ou Freeway Jam e sim ocasião para ouvir os trabalhos mais recentes e mais influenciados por ritmos do Oriente Médio e até mesmo levadas mais modernas, fora do padrão jazzy que marcou os álbuns clássicos dele.


O “sexagernário e mais uns anos” só reforçou aquilo que Sir Macca mostrou no domingo e na Segunda. Ou eu tô caindo aos pedaços ou eles descobriram a fórmula da fonte de juventude. Cacete. Essa turma tá gastando as cordas com uma energia incrível. Acho que o filósofo estava certo quando disse que quando se faz o que se gosta, não se envelhece.

Como bom britânico, “El Becko” pintou no palco às 22h em ponto e já mandou ver com Plan-B, música do disco homônimo “Jeff” de 2003. Para surpresa minha, quem estava acompanhando Beck na bateria ? Ninguém menos que Michael Walden, o baterista que tocou com ele no Wired e que substituía o monstro Vinnie Colaiutta nas baquetas. No baixo, eu já sabia e por isso não me decepcionei, veio a Rhonda Smith e não a prodígio Tal Wilkenfeld, a famosa “menininha dos cachos dourados” que acompanha Jeff Beck nos EUA e Europa. Para quem não conhece, vale buscar material dela. Com apenas 24 anos , Tal toca com músicos que poderiam ser o pai dela e não amarela jamais. Inclusive ela estava no palco do Festival Crossroads quando Beck tocou com Clapton. Ah...a Tal começou a tocar com esses gigantes com nada menos que 17 anos.

Mesmo assim, Rhonda Smith, que sempre acompanhou Prince, não deixou a peteca cair e provou que Mr Beck veio ao Brasil com uma cozinha incrivelmente animal.


A terceira música levantou o Via Funchal. Led Boots, imortal hino do disco Wired fez com que a banda se surpreendesse com a galera “cantando” os licks e riffs da música. Na sequência vieram músicas do novo disco “Emotion & Commotion” em que Beck faz covers bem ecléticos ...de músicas irlandesas/celtas à Nessun Dorma e até Somewhere Over the Rainbow. Vale ouvir Hammerhead, uma das músicas originais deste disco, uma bela paulada. Cover ou não, é incrível como Jeff Beck tem uma precisão cirúrgica nas composições. Não tem nota fora de lugar, não tem fritação...tudo cabe, tudo fica sonoro, harmônico e melódico.

Mais um momento de clímax do show foi People get Ready, som que ficou imortalizado através da parceria com Rod Stewart.


Beck raramente tirava os Rayban caçadores e fiquei com uma sensação que ele é um cara bem tímido, bem reservado...mas absurdamente talentoso. Sem uma palheta sequer à mão, o mestre detonou em volume swells, alavancadas sutis, slides com um feeling absurdo e o melhor, nada das pentatônicas que o “brother” Page usava à exaustão.Vale dizer que foi graças ao Jeff Beck que comprei minha primeira guitarra de verdade, uma Fender Stratocaster modelo, hummm, Jeff Beck.


Mas o Via Funchal não foi presenteado só com o talento do guitarrista. Todos à minha volta (volta pequena, pois fiquei colado na grade !) reparavam e comentavam sobre a dupla da cozinha. Impressionantes. Michael é um baterista muito técnico, tijoleiro, enfiava a mão nas peças e dominava os bumbos duplos com precisão de mestre Dave Lombardo. Rhonda usou técnicas de tudo quanto é tipo, abusou dos slaps, fez backings animais...enfim, quem é rei nunca tá mal acompanhado.


A décima segunda música foi Somewhere over the Rainbow, sim...aquela do filme velho da Dorothy e os bonecos mal feitos. Barbaridade. A emoção que o cara põe na guitarra é indescritível. Minimalista, simples, mas cheio de sentimento. Tinha gente chorando perto de mim. Duas depois, veio minha música favorita dele, Angel (Footsteps) do discaço Who Else. Essa quem quase chorou fui eu. Percebo cada vez mais o quanto Jeff Beck foi e é o mais introspectivo dos 3 guitar heroes ingleses. Se Page e Clapton conseguem transpirar emoção “de dentro pra fora” em músicas de alma, blues típicos, acho que o Beck compõe de “dentro pra dentro”. É indescritível.


A última antes do bis foi nada menos que “A Day in the Life”. E só reforçou o que disse agora aí em cima. As versões do cara são muito autorais, muito com a cara dele. Não é só um cover gratuito. Ele reinterpreta os temas sem sair da rota, sem perder a mão.


Pra fechar o show de 90 minutos, mais três músicas. Uma delas, um cover do vovô Les Paul, aliás único momento em que Beck tirou a Stratocaster e usou uma Les Paul Custom Shop, a famosa “Oxblood”, aquela usada nas gravações do Wired em 1976. Vale lembrar que Jeff Beck fez esse ano um projeto especial de tributo ao velho Les. A última foi Nessun Dorma, um clássico erudito com um gran finale de ópera rock. De chorar. Literalmente. Como fã de carteririnha do cara, fiquei na pista especial e lá notei que alguns “medalhões” das seis cordas brazucas estavam por lá, boquiabertos...André Christovam (velho, gordo), Edu Ardanuy (com aquela indefectível cabeleira porca) e ninguém menos que Faiska, sim ,o Jeff Beck brasileiro, digo, fisicamente falando. Todos bestificados com Jeff Beck. Todos cientes de que viram que pra ser bom não precisa ser novo, não precisa tocar sextinas a 200 bpm e nem achar que blues com feeling é coisa de SRV ou Clapton.


Long Live El Becko !


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